
“[...] durante todo o tempo em que tivermos o corpo, e nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto de nossos desejos! Ora, este objeto é, como dizíamos, a verdade. [...] somos acometidos pelas doenças — e eis-nos às voltas como novos entraves em nossa caça ao verdadeiro real!”
“Sócrates — Ora bem! Concedemos a palma da vitória à vida misturada de prazer e de sabedoria. Não foi isso mesmo?
Protarco — Exato.
Sócrates — Como percebemos facilmente qual seja a natureza dessa vida e a que gênero ela pertence.”
O poema Desenredo foi inspirado na busca de um diálogo entre a Alegoria da Caverna, do filósofo Platão e o conto Amor, de Clarice Lispector, a partir da ideia mais geral – a ruptura da ilusão.
A protagonista do conto, Ana, vive uma rotina que a aprisiona, vive uma cegueira até para si mesma. O conto descreve um dia da personagem, igual a todos os dias já vividos e com previsão de se repetir para sempre... Uma realidade previsível que a protege de questionamentos e espantos.
Porém Ana sai para atender demandas domésticas e, na volta para casa, “um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde” (Lispector, Clarice), e, no percurso, vislumbra pela janela um cego mascando chicletes (chicles). É arrebatada por esta imagem, a cegueira é uma metáfora para seu despertar, uma epifania:
“[...] Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada – o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô, despencou-se do colo, ruiu no chão – Ana deu um grito [...]” (Lispector, Clarice).
As ideias que despertaram esta busca de diálogo entre o conto Amor e a Alegoria da Caverna desdobram-se da ruptura da ilusão – o conforto e a segurança da vida em casa (caverna), para as atividades domésticas que pareciam a Ana a única realidade (as sombras), a ruptura e a luz (a saída da caverna), o encontro inesperado com o cego (a libertação), a dor e o espanto, na descoberta de que o mundo é incontrolável, de que nenhum saco de tricô ou rede delimita o mundo que existe além da superfície, um mundo incontrolável (epifania).
Quem já tiver lido a alegoria ou mito da caverna de Platão dificilmente escapa de relacionar ao filme Matrix (o primeiro da série), entendendo-o como uma versão contemporânea de questionamentos antigos.
No mito da caverna, os acorrentados viam sombras projetadas, acreditando que fossem a realidade. Em Matrix, o personagem Neo é o prisioneiro que deseja libertar-se e quer conhecer a verdade, sair da caverna e encarar a luz. A “pílula vermelha”, oferecida por Morpheus, é o símbolo da coragem da busca filosófica, o amor pela sabedoria que nos faz preferir as verdades incômodas à ilusão confortável.
A Matrix, na tradução filosófica oriental é Maya, a grande Ilusão. Sair dela é libertar-se da ignorância, despertar para o interno. O personagem Morpheus é um guia, aquele que explica o processo. Contudo, o despertar exige muito mais que o conhecimento da ilusão, a travessia é sempre pessoal. Ninguém pode nos fazer despertar, cabe a nós agir neste sentido.
Assistir Matrix à luz da filosofia clássica é enfrentar o desconforto sincero de uma existência alienada e vazia de propósito, conectada a crenças, hábitos e desejos muitas vezes incutidos, similar a estarmos plugados.
Em algum momento haverá a necessidade de ultrapassar a superficialidade, em buscar respostas para as grandes perguntas que acompanham o ser humano, em buscar romper as barreiras de uma vida irrefletida, galgando consciência e plenitude.
Todo mundo já sabe a sinopse, mas não custa revisar: durante o dia, Thomas Anderson é um programador insone, que bate ponto em um escritório monótono com divisórias de fórmica. À noite, é um hacker que atende pelo codinome Neo. No submundo virtual, entra em contato com algo chamado Matrix – descrita como “a sensação de que há algo de errado com o mundo”. Ele fica obcecado pela ideia. Por meio de outro hacker, Trinity, Neo conhece o conspirador Morfeu – não por coincidência, nome da divindade grega do sono. Morfeu revela que o mundo conhecido por Neo, na verdade, é uma realidade virtual. Máquinas sencientes dominaram o planeta, derrotaram nossa espécie e estão extraindo energia de nossos corpos dormentes em enormes “fazendas de gado humano” – enquanto nos mantém distraídos com um simulacro do que era a Terra no auge da civilização humana. Morfeu é um dos líderes da rebelião contra a inteligência artificial, e traz Neo para a realidade com a famosa pílula vermelha.
O despertar de Neo remete ao Mito da Caverna, um experimento mental proposto por Platão no livro VII República, escrito por volta de 380 a.C. No livro VII, Sócrates pede a Glauco que imagine uma caverna em que um grupo de pessoas está aprisionado desde o nascimento. Eles são atados de maneira que só conseguem ver a parede da caverna: não enxergam seus próprios corpos, nem os de seus colegas. Exatamente como os humanos em Matrix – que são armazenados pelas máquinas em cápsulas gelatinosas, desacordados. Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, cuja luz é usada para projetar sombras de pessoas, animais e objetos na parede da caverna. Como os prisioneiros nunca tiveram acesso à realidade, passam a pensar que aquele mundo de interações entre sombras é a própria realidade. Uma versão analógica do que acontece no filme. Sócrates então imagina o que ocorreria se um dos prisioneiros fosse libertado e arrastado à força para fora – o equivalente a tomar a pílula vermelha. Após muita resistência, ele seria exposto ao mundo e forçado a pensar sobre o que vê. Assim, descobriria que a realidade é muito mais satisfatória que o teatro de sombras, e retornaria à caverna, ansioso por libertar seus colegas. O francês René Descartes, que viveu entre 1596 e 1650, é outro alicerce de Matrix. Ele é o autor da frase mais famosa da civilização ocidental, “Penso, logo existo”. Em outras palavras: não dá para ter certeza de nada. Mas dá para ter certeza de que você é capaz de duvidar de tudo. Não podemos confiar nas informações fornecidas por nossos sentidos, mas sempre teremos o raciocínio lógico à nossa disposição. As máquinas só não privaram Neo da capacidade de pensar e raciocinar, e foi essa capacidade que o libertou; indivíduos livres podem mudar o futuro, dilema que se desdobra na cena das pílulas vermelha e azul oferecidas por Morpheus. Neo deve escolher entre permanecer na realidade (pílula vermelha) ou retornar ao simulacro da matrix (pílula azul). Em Matrix, os rebeldes rejeitam o conforto da matriz, preferindo a sombria realidade. Mas também vemos o traidor rebelde Cypher (interpretado por Joe Pantoliano) buscar desesperadamente a reinserção na agradável realidade simulada. “Ignorância é felicidade”, afirma ele.
E você o que pensa sobre isso?
O 11º Ciclo de Estudos do Grupo de Pesquisa Gnosiologia, Ética e Informação, da Universidade Federal de Alagoas, foi uma iniciativa relevante, necessária e edificante do Professor Israel Costa – que aproveito para agradecer a oportunidade de estudos e reflexões.
Durante quase três meses (de quatro de março a 29 de maio do ano 2026) foram 12 encontros virtuais, cada um tratando de modo profundo e didático a respeito de um mito platônico: da Criação do Mundo; de Atlântida; de Theuth; da Reencarnação; do Auriga; de Er; dos Esféricos; de Poros e Penia; da Linha Dividida; do Sol; da Caverna; de Prometeu. Para este texto brevíssimo optei por escrever a respeito do Mito da Alegoria da Caverna.
Na caverna vivemos todos. Ainda que estejamos no alvorecer do século XXI após a encarnação de Jesus em nosso orbe planetário. Estamos cada vez mais afundados no subterrâneo: de nossas agendas corridas; das tecnologias que apequenam as distâncias, mas amplificam os distanciamentos; do consumo voraz; das informações cada vez mais massivas – e, para isso, rasas. Enfim, das vidas abarrotadas de um vazio adoecedor, pois nos aliena de nosso propósito enquanto pessoas humanas. E nesta caverna somos submetidos, perenemente, às mais diferentes imagens sombrias projetadas na parede de nossa consciência, por meio do fogo midiático e econômico. Sombras: alienação; torpor. Mas só há sombra onde se tem luz. Sombra é projeção da luz interceptada por um corpo opaco/denso. A luz que clareia – esclarece – pede passagem para este corpo, que é o nosso (somos nós). Habitamos o subterrâneo, que por conter a nossa essência tem potencial iluminativo. Sombra: tem característica ascensional.
Da Sombra ao Sol. Saída e retorno à caverna. Tomada de consciência por meio dos conteúdos inconscientes. Idas e vindas em um processo espiralar, tecendo nossa mandala psíquica. Processo de individuação: tornar-se quem se é em essência; conhecendo-se a si-mesmo, por dentro, de dentro para fora. Constituindo-se uma totalidade única por meio de uma autoeducação hermenêutica – que só pode ocorrer em coletivo: presencial, no contato; artesanalmente. A arte de tornar-se si próprio: divinamente humano... humanamente divino.
Caverna: para sair é necessário saber que nela nos encontramos, pois é lá (em nós mesmos) que se encontram os meios para tal empreitada psicológica de ascensão ético-moral. Fácil? Não! Agradável? Não. Cansativo, exigente e perigoso? Sim. Mas necessário, pois sublime e edificante. Um propósito que vale à pena – o propósito da vida humana encarnada.
Trata-se de uma alegoria/mito sobre a nossa consciência e o modo de ver o real, a realidade e o Mundo, usando um método de exposição convincente e de fácil entendimento, porém, há falhas apontadas por Lévy-Strauss, entre elas, a necessidade de um guia para nos revelar “a verdade”, que, nos casos concretos históricos, nem sempre foram muito honestos, com a exceção do Cristo.


